Quem de nós nunca viu um pássaro preso dentro de uma gaiola cantando lindamente e pensamos: “- Que música encantadora, ele está preso, mas parece tão feliz!”, “Adoro ouvi-lo cantar!”.
Mas será que este canto era de alegria, de tristeza, um pedido de socorro, uma oração? Vai saber... dá a impressão, de que para as pessoas isso não importa, porque se lhes faz bem, talvez isso baste, talvez seja apenas o que chama a atenção.
Isso aconteceu com o Curió. Ele ficou preso numa gaiola, e ainda assim cantava, lindamente.
Só que com o passar dos tempos, o pássaro preso dentro da gaiola foi ficando triste, cansado de não poder voar, mover suas asas por aí. Foi sentindo falta de ver lugares diferentes, sentir o vento batendo na cara, dar um rasante vez por outra, para se sentir vivo!
À medida que foi se deprimindo, sua voz foi ficando fraca, ele foi perdendo o encanto, suas penas foram perdendo o brilho, suas patas já não tinham força nem para saltar de um lado ao outro dentro da gaiola.
Mas as pessoas continuavam vivendo suas vidas, e não percebiam que o pássaro não cantava mais. Passavam por ele, muitas vezes por dia, mas não o notavam. Limpar a gaiolinha, uma vez ou outra, com muita rapidez. Um carinho superficial no pescoço, um afago nas asinhas e já estava. Do que ele iria se queixar? Tinha a gaiola mais bonita do bairro, comia do melhor alpiste, recebia água gelada todos os dias...
Ele precisava de mais. Ele precisava voltar a cantar. Precisava voar mais alto, aprender a dar umas cambalhotas no ar... ele sabia que conseguia, mas estava preso. E foi ficando triste, abatido, deprimido.
Um belo dia, alguém daquela casa ficou doente. Passou dias sentado no sofá bem em frente do passarinho e por fim notou que ele não cantava mais. Passaram-se dias, e o pássaro não cantava, não se mexia, nada... A pessoa se levantou, abriu a porta da gaiola, pegou o bichinho nas mãos e percebeu que o tal animalzinho estava muito debilitado. Tremia muito, não conseguia se mover direito, não tinha reação.
Assustado, o rapaz chamou os demais membros da família e comunicou que talvez estivesse acontecendo algo de errado com o Curió. Chamaram um veterinário. Ficou constatado que o bichinho estava de fato doente. Fraqueza muscular, confusão mental, apatia.
As pessoas da casa não entendiam: “-Meu Deus, o que aconteceu com ele? A gaiola é nova, o alpiste é importado...porque ele está assim...?”
E o veterinário prontamente respondeu: “- Ele está preso nesta gaiola, e ele é um pássaro, precisa voar. Precisa se sentir livre para poder cantar. Ninguém percebeu que ele estava definhando?
Outro familiar respondeu: “-Mas foi ele que quis ficar na gaiola. Teve um dia que ele machucou a patinha e não conseguia voar. Compramos a gaiola e colocamos ele aí dentro. E como tinha 'bastante” espaço, ele se movia, cantava, interagia. Pensávamos que ele estava feliz.!”
Veterinário: “-À princípio, apesar de preso, ele até poderia ter se acostumado, porque contudo, recebia atenção. Se sentia cuidado, e isso era bom. Mas logo vocês foram vivendo a vida de vocês, e esqueceram dele ali dentro, trancado. Foi então que ele adoeceu!”
Familiares: “-Doutor, o que podemos fazer para ajudá-lo?”
Veterinário: “-Continuem dando alpiste de qualidade, água geladinha, mas deem carinho e...
abram a porta da gaiola para ele poder sair...”
Familiares: “-Vamos tirar ele desta gaiola, vamos, ele vai sair voando, vocês vão ver.
Vem Curió, sai, a porta está aberta. Voe, voe, cante! Vamos!”
Passaram-se alguns minutos e nada. O bichinho continuava lá, encolhidinho no fundo da gaiola, tremendo, assustado. Sem saber o que fazer.
E as pessoas o chamavam efusivamente: “-Venha Curió. Venha... Desculpa. A gente ama você, venha. Vamos lhe ajudar a voar...”
O veterinário concluiu: “-Agora, vocês precisarão ter paciência com ele. Foram muitos anos preso nesta gaiola. As patinhas estão fracas. A visão um pouco prejudicada. Vou passar um suplemento para ele tomar.”
Desde aquele instante, a porta da gaiola nunca mais se fechou. Todos os dias alguém da família passava por Curió e fazia um carinho na sua cabecinha. Mas, ele não reagia. Tinha medo, estava perdido. Já não sabia mais voar. Não sabia por onde ir. Todos os dias ele pensava: “-Hoje, hoje eu tento sair desta gaiola. Eu vou conseguir.” Dava uns pequenos passos, e quando avistava a altura, sentia calafrios, e voltava para o seu cantinho. Lá era escuro, era apertadinho, mas era seguro. Afinal, ele ficou tanto tempo ali que se acostumou. “-E se eu cair, e se eu me machucar? E se eu me perder? ” Ele pensava.
Até que um dia ouviu uma voz doce e suave dentro do seu coração que dizia: “- Curió meu filho você está livre, livre! Voe, cante! O seu canto é importante para o mundo. Eu te fiz vistoso e repleto de qualidades, não desperdice os dons que te dei...”
O relutante pássaro deu uns passinhos, olhou para a porta da gaiola, sentiu o vento bater no seu bico, e lembrou como era bom quando podia voar, lembrou que amava cantar, como se sentia feliz... Por um instante pensou, eu vou, e foi, mas voltou rapidamente. E tentou voar mais uma vez, e outra... mas não conseguia... era muito difícil ele sair daquela gaiola.
Um belo dia, o barulho do vento lembrou um acorde. Um lindo acorde que ele gostava de cantar. E ele arriscou uns cânticos. Cantou um, dois, três. Quando percebeu ele estava cantando, lindamente. Mais ainda do que antes. Cantava como nunca tinha cantado por toda a vida. Porque agora ele sabia como era bom saber cantar. Então ele cantava, cantava, com tanto ímpeto, tanta força que as pessoas não conseguiam mais ignorá-lo. Porque sua voz tinha uma força divina tão forte e encantadora que tomava conta de todos os ambientes da casa.
E isso foi contagiando a todos. A ponto de cotidianamente, antes de sair para suas atividades diárias, os moradores daquela casa não conseguirem iniciar suas rotinas sem ao menos ouvir uma música cantada pelo tal pássaro.
Foi então que Curió percebeu que não adiantava ele querer voltar a voar sem conseguir afinar seu canto primeiro. Porque o que dava segurança para suas peripécias no ar, era a beleza da sua voz. Percebeu que a porta da gaiola continuava aberta. Mas ele ainda estava dentro dela... ainda não tinha forças para sair. Mas decidiu seguir cantando... Quem sabe um dia ele consiga voar... Ele acredita que vai conseguir...
Quantos de nós somos aprisionados em gaiolas durante toda a nossa vida? “- Não faça isso! “- Isso não é pra você!”, “- Acorde, você não vai conseguir!”, “-Pare de sonhar!”. “- Em que mundo você vive?”. “- Pare!”, “-Não!”, “-É perigoso!”... etc, etc, etc.
Como se nos dissessem: “-Você canta bem, mas cante aqui, dentro desta gaiola que é mais seguro. Lá fora o mundo é muito cruel. Você é tão frágil e delicada que vão te machucar!”
Mas todos gostam de ouvir o tal canto, então te prendem na gaiola mas querem que você continue ali, plena, cantando lindamente. Só para eles.
Não entendem que para cantar um pássaro precisa estar livre? Como tem as asas cortadas, os sonhos podados, as expectativas retidas e ainda assim querem que ele cante? Como?
Ao longo de nossas vidas recebemos muitos nãos. Somos incentivados a desistir de tantos sonhos. Por diversos canais. Pessoas a nossa volta, situações cotidianas, crenças religiosas, crenças limitantes do convívio social, ideologias, ética, etc... A quem importa como você se sente depois?
Frustrações que não eram suas, medos que nunca te pertenceram, visões equivocadas sobre o seu real valor. Como não percebemos isso? Como deixamos a vida nos engolir assim? Quando somos pássaros, e queremos cantar, não conseguimos calar nossa voz. É mais forte que nós.
E o tempo? O tempo passou... e continua passando. Então, faça a sua parte...
A porta está aberta Curió! Você já sabe cantar. Agora voe! Voe! Existem paisagens lindas que você precisa conhecer...
autora: Adriana Ferreira Flores Mafra